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segunda-feira, 11 de abril de 2016

O que acontece com as Bibliotecas agora que temos o Google?

 “O bibliotecário não pode ser apenas o ‘guardador de livros’. Tem que ser o verdadeiro profissional da informação, aquele que trabalha com ela independente do suporte, que desenvolve ferramentas que permitam a melhor gestão desse conhecimento, tem que pensar estrategicamente e estar atualizado para as tendências mercadológicas e tecnológicas”

Com essa frase inspiradora de Izadora Saldanha, responsável pelo Centro de Documentação e Informação/Biblioteca da empresa Planave S. A.apresentamos o artigo "Bibliotecas migram para as nuvens - Manter os leitores no espaço físico é um desafio para os bibliotecários" por Elaine Souza compartilhado de Revista Atlas e quem sabe acabamos de vez com essa preocupação: O que acontece com as Bibliotecas agora com o Google?
Confira:


Se antes a pergunta era “o que acontece com as bibliotecas agora que temos a internet?”, a dúvida hoje é como fica esse cenário com os lançamentos cada vez mais frequentes de livros digitais. Afinal, qual o propósito de ir até a biblioteca se é possível encontrar aquele exemplar antigo ou novo em e-book e lê-lo em seu smartphone, dispositivo e aparelho que tornam muito mais fácil encontrar uma citação, nome ou termo específico sem ter que folhear mil vezes cada página?
Diante desse quadro, bibliotecas da importância da Nacional, no Rio, e da Brasiliana, da USP, agora mantêm seu próprio acervo digital e levam para a casa ou telefone dos interessados, parte de seus preciosos acervos. Atualmente, a Biblioteca Nacional — BN Digital — conta com cerca de 870.821 títulos em seu acervo e mais de 5 milhões em periódicos digitalizados na Hemeroteca. Na BN as primeiras iniciativas surgiram em 1998, mas as estantes nas nuvens só foram oficialmente lançadas em 2006.
A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin foi criada em 2005 para abrigar a coleção do bibliófilo José Mindlin e sua esposa Guita, que doaram sua coleção à USP. Logo após a BN, a Brasiliana deu início a digitalização em meados de 2008, pois o prédio da biblioteca estava em construção e teve sua nova sede inaugurada oficialmente em 2013, quando finalmente o diretor da Mindlin, à época o professor István Jancsó, reuniu um grupo de profissionais para dar forma à biblioteca digital. Sua coleção ultrapassa os 60 mil volumes e conta com mais de 3.000 títulos disponíveis para consulta digital.
O cenário pode parecer preocupante no início, mas as bibliotecas aproveitaram a situação para se modernizar. “O que impulsiona hoje os gestores de instituições culturais é a própria demanda da sociedade, dos pesquisadores. Uma vez que com as facilidades possibilitadas pelo uso das tecnologias de informação, atualmente não tem sentido viajar quilômetros para se ter acesso ao conteúdo de um documento”, opina Daniela Pires, bibliotecária da Brasiliana há 9 anos.

“A falta de verbas é um dos principais problemas”
Para atrair os novos e manter o interese dos antigos leitores, a facilidade de acesso aos conteúdos foi o principal objetivo. As bibliotecas universitárias, por exemplo, hoje em dia possuem seu catálogo disponível via internet, facilitando a pesquisa, busca, reservas e renovações de títulos, pelos usuários. Além de parte do acervo digital, tais como dissertações e teses de 2000 em diante para visualização online.
O leitor Gabriel Moura, estudante da UFRJ, acredita que os e-books ajudaram bastante na hora de estudar. “Quando você chega em casa às dez da noite e percebe que esqueceu de xerocar aquele texto da prova de amanhã, é um alívio saber que é possível entrar no site da biblioteca e visualizar o arquivo, mesmo que outra pessoa esteja acessando. Além de poder ver no tablet e celular”, explica.
Coordenadora da BN Digital, Angela Monteiro comenta que as principais considerações no início da digitalização foram levar em conta o valor histórico ou memorial, a importância e a raridade de obras específicas, assim como a relevância de coleções, na sua totalidade ou em parte. “Então foram selecionadas de forma a reunir uma massa crítica de informação e um volume mínimo de conteúdos que permitisse a contextualização e o inter-relacionamento das obras que a compõem”, diz.
Segundo Monteiro, a BN é a maior biblioteca digital do país pela quantidade de itens e 
importância de sua coleção. Apesar de serem apenas os que se encontram em domínio 
público, ou seja, livres de direito autoral, ocorrem em média 300 mil acessos remotos 
por mês e aumentam a cada dia.
Por outro lado, não é tão simples disponibilizar os livros e mantê-los no “ar”. A falta de verbas para os equipamentos para obter e armazenar os exemplares é um dos principais problemas encontrados. A digitalização em si enfrenta grandes desafios, desde a adequada definição dos parâmetros e padrões a serem utilizados até questões relacionadas ao controle de qualidade das imagens geradas e à própria preservação digital desse acervo, já que o acervo virtual, assim como o físico, possui características próprias e únicas, comenta Jony Favaro, especialista em Digitalização e Web Developer.
De acordo com Favaro, é necessário pensar em soluções e sistemas que permitam o adequado controle desse material, bem como soluções de backup para garantir o armazenamento dos arquivos e assim não danificá-los ou até mesmo perdê-los.

As bibliotecas têm passado por um processo de transformação intenso. Certamente deram um grande passo na direção da democratização do acesso e quem ganhou com isso foram os usuários. Não só pelo conforto e possibilidade de escolher o método de leitura que mais lhe agrada, mas também pelo fato de que sua pesquisa tornou-se facilitada através do reconhecimento de caracteres nos e-books. O que dá total mobilidade ao leitor, o qual concentra mais tempo em seu trabalho.
Para a pesquisadora da Uerj Rafaela Mascarenhas os próprios bibliotecários acabam sendo “levados” junto a essa reformulação dos livros, pois eles também têm que passar do analógico ao digital, aprender novas técnicas e métodos para lidar com os softwares predominantes no mercado.
“O bibliotecário não pode ser apenas o ‘guardador de livros’. Tem que ser o verdadeiro profissional da informação, aquele que trabalha com ela independente do suporte, que desenvolve ferramentas que permitam a melhor gestão desse conhecimento, tem que pensar estrategicamente e estar atualizado para as tendências mercadológicas e tecnológicas”, complementa Izadora Saldanha, responsável pelo Centro de Documentação e Informação/Biblioteca da empresa Planave S. A.

Preferências por e-books no Brasil

Em 2007 a Amazon — empresa de comércio eletrônico — iniciou as vendas de seu primeiro e-reader, o Kindle. Com a popularização dos leitores eletrônicos e a crescente oferta de livros digitais, muitos especialistas começaram a questionar qual seria o futuro das livrarias e bibliotecas. Já que, desde então as vendas de livros impressos diminuíram. Os e-books trabalham com a comodidade, que tem sido sua maior vantagem.
Imagem: Agência Proteste
Durante viagens, a maioria dos leitores prefere os e-books. No entanto, para as crianças, 80% optam pelas edições físicas. Uma pesquisa do instituto Pew Research, com 3 mil leitores, mostra que o livro digital leva vantagem em relação ao papel em algumas situações.
O levantamento feito pela 3ª edição da “Retratos da Leitura no Brasil” em 2011, pelo Ibope Inteligência para o Instituto Pró-Livro, mostra que o país tem mais de 9,5 milhões de leitores de e-books. Em sua maioria são mulheres com idade entre 18 e 24 anos. Número que continuou aumentando pela simplicidade e disponibilidade de se encontrar os livros eletrônicos em qualquer lugar.
Apesar de todo o avanço tecnológico, cada vez mais relevante e inseparável do nosso cotidiano, uma opinião é unânime entre os bibliotecários, pesquisadores e leitores: a biblioteca não vai sumir, está apenas passando por um upgrade.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Bibliotecas e suas Mudanças Inevitáveis


As Bibliotecas tradicionais  tem enfrentado um mundo de mudanças rápidas, forçando o Bibliotecário a ser mais criativo e inventivo. Mudanças que não ocorrem só na forma de conceber, planear, organizar e gerir, mas também em como abordar mudanças estruturais que condicionam o futuro das mesmas.
Nesse artigo compartilhado do site Bibliotecativa falaremos sobre 09 métodos a serem aplicados e que garantem resultados, dá uma olhadinha:
 1. Biblioteca  |  Internet
Com o surgimento, expansão e consolidação da internet começou a consubstanciar-se a visão utópica da bibliotheca mundi. Nessa visão todo o conhecimento humano estaria global e instantaneamente acessível a todas as pessoas.
A crença que a Internet é o repositório de todo o conhecimento humano leva que a generalidade das pessoas recorra à internet em vez da biblioteca enquanto meio privilegiado para aceder ao conhecimento.
A biblioteca tradicional (enquanto repositório do conhecimento humano) viu a sua função visão fundadora colocada em causa.
É fundamental acompanhar a mudança de paradigma. É uma passagem do mundo fechado (biblioteca) ao universo infinito (internet). Da biblioteca material à desmaterialização da biblioteca. Da biblioteca centrada nos livros à biblioteca centrada nas pessoas.
Essa nova biblioteca apresenta um conjunto de características diferenciadoras. Ela é glocal, hibrida, mediadora, multicultural, proactiva, inovadora, sedutora, participada, afetuosa, sustentável.
 2. Impresso  |  Digital
A segunda mudança estrutural prende-se com a passagem do impresso para o digital. É uma mudança no suporte para o registo, armazenamento e disseminação do conhecimento.
Essa mudança trás também consigo uma cada vez maior multiplicidade de formatos. Essa passagem não se inscreve numa lógica de natural evolução, mas sim de radical transformação.
A alteração do suporte trouxe também consigo uma mudança no conteúdo, tanto ao nível das suas caraterísticas intrínsecas como extrínsecas.
Em última instância, esta mudança estrutural veio alterar a própria substância do conhecimento.

3. Texto  |  Multimédia

O texto tem vindo a perder terreno para o multimédia. A sua natureza digital, permite ao multimédia combinar diferentes fragmentos de informação. Dando origem a uma multiplicidade de formatos e lógicas. Dando origem a uma experiência mais dinâmica, interativa e apetecível.
Os livros tradicionais (essencialmente compostos por textos impressos) são substituídos por artefactos digitais (essencialmente compostos por multimédia).
A própria forma de apropriação do texto e do multimédia são profundamente diferentes. O texto é apropriado através de um processo de leitura. O multimédia é apropriado através do um processo multissensorial.
Também aqui a biblioteca tradicional perde terreno face à internet.

4. Catálogo  |  Google

Tradicionalmente o catálogo é o fio de ariadne da biblioteca. Ele permite ao leitor encontrar um livro no meio dos milhares/milhões de livros disponíveis. E, deste modo, aceder ao conhecimento contido nesse livro.
O Google é o fio de ariadne da internet. Ele permite ao leitor encontrar uma lista pertinente de recursos digitais disponíveis na internet. E, através de navegação, aceder imediatamente a esses recursos.
A natureza do catálogo da biblioteca é diferente da natureza de um motor de busca. Esta diferença é notória não somente na abrangência como também na eficácia da pesquisa.
A opção mais comum é clara. Para realizar uma pesquisa recorre-se em primeira instância ao Google para encontrar recursos na internet. A pesquisa no catálogo da biblioteca para encontrar livros só surge em última instância.
Mais uma mudança estrutural que determina uma mudança de paradigma de biblioteca.

5. Leitores  |  Utilizadores

O público das bibliotecas municipais é composto essencialmente por utilizadores. Que podemos definir como pessoas que frequentam os espaços da biblioteca como locais de estudo ou de acesso à internet e que não recorrem aos fundos documentais.
Poucos são efetivamente os leitores. Que podemos definir como pessoas com hábitos de leitura que utilizam o serviço de leitura presencial ou o serviço de empréstimo domiciliário de livros, revistas ou jornais.
É a própria natureza do público das bibliotecas municipais que mudou. Essa mudança implica uma mudança também do enfoque da biblioteca. Ou seja, a passagem da biblioteca centrada nos livros para a biblioteca centrada nas pessoas.
Essa mudança de enfoque implica que se conheçam quem são, o que pretendem e como se comportam os utilizadores das bibliotecas municipais. Implica também, acima de tudo, repensar a natureza da biblioteca municipal.

6. Posse  |  Acesso

Nos tempos primordiais as bibliotecas eram grandes repositórios de livros. Tinham por missão proteger a civilização contra as investidas da barbárie.
Com o surgimento das modernas bibliotecas públicas a tónica foi colocada na disponibilização do acesso aos livros por parte do cidadão comum. Surgem o livre acesso às estantes e empréstimo domiciliário.
Atualmente os polos inverteram-se. As últimas tendências da internet (cloud e streaming) levam a que a posse passe totalmente para segundo plano face ao acesso.
Esta tendência tem um fortíssimo impacto no próprio conceito de coleção e de acesso no âmbito das bibliotecas públicas. Em última instância leva à desmaterialização das coleções das bibliotecas.

7. Massificação  |  Personalização

As bibliotecas municipais tentam chegar a todos os segmentos da população. Para isso disponibilizam serviços genéricos para públicos indiferenciados.
Todavia, as potencialidades trazidas pela tecnologia permitem uma quase total personalização. O acesso e disponibilização aos conteúdos é feito em função do perfil de preferências individuais.
Exemplos máximos desse novo fenómeno são a Google, a Amazon e o Facebook. Poderosos algoritmos permitem determinar (para o melhor e para o pior) as escolhas de cada um de nós. Permitem antecipar as necessidades do cliente a partir do histórico de pesquisas, de compras ou de gostos.
Num ambiente exclusivamente digital as bibliotecas não têm como competir contra tão poderosos adversários.
Somente ao nível da prestação de serviços presenciais as bibliotecas podem levar vantagem. A aposta em serviços inovadores e num atendimento altamente qualificado é determinante.
Mas isso implica uma postura completamente diferente daquela que é praticada pelos profissionais na maioria das bibliotecas.

8. Just-in-case  |  Just-in-time

As bibliotecas municipais constituem as suas coleções com critérios de abrangência, diversidade, atualidade e pluralidade. Partem do pressuposto que estas devem responder a um qualquer pedido, num qualquer momento, de um qualquer utilizador.
Para além das limitações próprias desta filosofia, ela é hoje em dia duplamente colocada em causa.
Por um lado, pela não existência da prática de empréstimo interbibliotecas entre as bibliotecas municipais portuguesas. O que faz com que cada biblioteca municipal esteja circunscrita aos seus próprios fundos documentais.
Por outro lado, pela possibilidade de qualquer utilizador aceder a um número quase infinito de documentos disponíveis em tempo real na internet. O que faz com que a internet substitua a biblioteca na instantaneidade e na abrangência.

9. Reactividade  |  Proactividade

Perante todas as mudanças estruturais anteriormente caracterizadas há que efetuar uma outra mudança ao nível das mentalidades.
Essa mudança implica a passagem de uma atitude expectante e reativa para uma atitude liderante e proactiva. Essa é uma mudança substantiva que determinam o papel e o estatuto que os profissionais que trabalham nas bibliotecas municipais poderão ter no futuro.
Para transformar as bibliotecas municipais portuguesas há que, antes de mais, transformar a atitude dos profissionais que nelas trabalham. Esse é um processo inevitável, urgente e de extrema importância.
Compartilhado de: http://bibliotecativa.pt/mudancas-estruturais/

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Percussor da Web era Bibliotecário - Conheça Paul Otlet

Um bibliotecário chamado Paul Otlet 

Museu celebra o verdadeiro precursor da web

Alex Wright
Em uma tarde enevoada de segunda-feira, a cidade medieval de Mons, na Bélgica, submersa na neblina, parece um lugar esquecido. Além da catedral gótica obrigatória, não há muito mais que ver por aqui, se
excluirmos um pequeno museu chamado Mundaneum, que fica em uma rua estreita no canto nordeste da cidade. Ele parece ser uma casa isolada o bastante para abrigar o legado de um dos pioneiros perdidos da tecnologia: Paul Otlet.
Em 1934, Otlet delineou os planos iniciais para uma rede mundial de computadores (ou “telescópios elétricos”, como os designava), cujo objetivo seria permitir que as pessoas vasculhassem milhões de documentos, imagens e arquivos de som e vídeo interligados. Ele descreveu a maneira pela qual as pessoas usariam aparelhos para trocar mensagens, arquivos e até mesmo se unir em redes sociais online. Otlet designou a estrutura como “reseau”, literalmente rede, ou, concebivelmente, “web” teia.
Os historiadores costumam traçar as origens da world wide web seguindo uma linhagem de inventores anglo-americanos como Vannevar Bush, Doug Engelbart e Ted Nelson. Mas mais de meio século antes que Tim Berners-Lee lançasse o primeiro browser, em 1991, Otlet descreveu um mundo interconectado no qual “qualquer pessoa, de sua cadeira, poderia contemplar toda a criação”.
Ainda que a proto-web de Otlet dependesse de uma colcha de retalhos de tecnologias analógicas como cartões de indexação e telégrafos, ainda assim ela antecipou a estrutura baseada em hiperlinks da web
contemporânea.
“Era como que uma versão steampunk do hipertexto”, disse Kevin Kelly, ex-editor da revista Wired, que está escrevendo um livro sobre o futuro da tecnologia.
A visão de Otlet tinha por base a idéia de uma máquina operando em rede e integrando documentos por meio links simbólicos. Embora o conceito possa parecer evidente hoje, em 1934 representava uma grandeinovação intelectual. “O hiperlink é uma das invenções mais subestimadas do século passado”, disse Kelly. “Mas um dia estará em companhia do rádio no panteão das grandes invenções”.
Hoje, Otlet e seu trabalho estão em larga medida esquecidos, mesmo em sua Bélgica natal. Ainda que Otlet tenha desfrutado de fama considerável durante a vida, seu legado caiu vítima de uma série de infortúnios históricos – não o menor dos quais foi a invasão da Bélgica pelos nazistas, que resultou na destruição de grande parte daquilo em que ele trabalhou durante toda sua vida.
Mas nos últimos anos um pequeno grupo de pesquisadores começou a recuperar a reputação de Otlet, publicando alguns de seus textos e arrecadando dinheiro para estabelecer seu museu e arquivo, em Mons.
Enquanto o museu Mundaneum se preparava para comemorar seu 10° aniversário, na quinta-feira, os curadores planejavam colocar parte de sua coleção na web moderna. O evento será não só uma confirmação
póstuma das idéias de Otlet mas representará uma oportunidade para que sua posição na história da Internet seja reavaliada. O Mundaneum representa apenas uma curiosidade histórica, uma estrada que não foi percorrida? Ou a visão de seu criador pode ajudar a compreender a web tal qual a conhecemos hoje?
Ainda que Otlet tenha passado toda sua vida de trabalho na era anterior aos computadores, ele tinha notável senso de antecipação quanto às possibilidades da mídia eletrônica. Paradoxalmente, a visão dele sobre um futuro sem papel nasceu de um fascínio que durou toda sua vida pelos livros.
Otlet, nascido em 1868, só começou a freqüentar a escola aos 12 anos de idade. Sua mãe morreu quando ele tinha três anos; seu pai era um empresário de sucesso que fez fortuna vendendo bondes em todo o mundo. O pai preferiu não matricular Otlet na escola devido à convicção de que o estudo poderia sufocar o talento natural da criança. Deixado em casa com seus tutores e poucos amigos, Otlet levava uma vida solitária e dedicada aos livros.
Quando ele por fim começou a estudar, sua primeira atitude foi procurar a biblioteca. “Eu me trancava na biblioteca e vasculhava o catálogo, que para mim era miraculoso”, ele escreveu mais tarde.
Pouco depois de começar a estudar, ele se tornou bibliotecário da escola. Nos anos seguintes, Otlet jamais deixava a biblioteca. Ainda que seu pai o tenha pressionado a estudar Direito, ele logo deixou de
lado a advocacia e retornou ao seu amor primeiro, os livros.
Em 1895, Otlet conheceu um espírito irmão, Henri LaFontaine, futuro ganhador do prêmio Nobel, que se uniu a ele na criação de uma bibliografia central contendo todo o conhecimento em forma de livro existente no mundo.

Mesmo em 1895, o projeto parecia indicar uma imensa arrogância intelectual. Os dois homens decidiram que coligiriam dados sobre todos os livros que já tivessem sido publicados, bem como uma vasta coleção de artigos de jornal, fotografias, cartazes e todos os tipos de objetos efêmeros – como panfletos – que as bibliotecas formais costumavam ignorar. Usando cartões de índice (então a mais avançada forma de armazenar informações), eles criaram um imenso banco de dados em papel contendo mais de 12 milhões de verbetes.
Otlet e LaFontaine conseguiram enfim convencer o governo belga a apoiar o projeto, propondo construir uma “cidade do conhecimento” que reforçaria a campanha do governo para fazer do país a sede da Liga das Nações. O governo lhes concedeu espaço em um edifício público, e Otlet expandiu suas operações. Contratou mais funcionários, e estabeleceu um serviço de pesquisa pago que permitia que qualquer pessoa do mundo fizesse uma pergunta por telegrama ou correio – uma espécie de serviço de busca analógico. Surgiram perguntas vindas de todo o mundo, mais de 1,5 mil ao ano, sobre tópicos tão diversos quanto os bumerangues e as finanças da Bulgária.
À medida que o Mundaneum evoluía, o volume de papel começou a se tornar grande demais. Otlet decidiu desenvolver idéias para novas tecnologias que ajudassem a administrar a sobrecarga de informações. Em determinado momento, ele propôs uma espécie de computador de papel, com rodas e eixos, que moveria documentos pela superfície de uma mesa. Mas ele acabou por decidir que a solução definitiva tinha
de envolver o abandono completo do papel.
Porque não existiam aparelhos de armazenagem eletrônica de dados nos anos 20, Otlet teve de inventá-los. Começou a escrever longamente sobre a possibilidade da armazenagem eletrônica de dados, o que culminou em um livro lançado em 1934, Monde, no qual ele expunha sua visão sobre um “cérebro mecânico coletivo” que abrigaria todas as informações do mundo, a qual estaria facilmente disponível por intermédio de uma rede mundial de telecomunicações.
Tragicamente, no momento em que a visão de Otlet começava a se cristalizar, o Mundaneum começou a enfrentar dificuldades financeiras. Em 1934, o governo belga perdeu o interesse pelo projeto, quando a Liga das Nações escolheu a Suíça como sede. Otlet transferiu sua empreitada a um espaço menor, e devido às dificuldades financeiras teve de fechá-la ao público.
Alguns funcionários continuaram trabalhando no projeto, mas o sonho acabou quando os nazistas invadiram a Bélgica, em 1940. Os alemães removeram todo o conteúdo do local original do Mundaneum para abrir espaço a uma exposição sobre a arte do Terceiro Reich, e destruíram milhares de caixas com os cartões de índice. Otlet morreu em 1944, um homem derrotado e que não demoraria a ser esquecido.
Depois de sua morte, o que sobreviveu do Mundaneum original foi abandonado no velho edifício do departamento de anatomia na Universidade Livre de Parc Leopold, até 1968, quando um jovem estudante de pós-graduação chamado W. Boyd Rayward encontrou informações sobre a vida de Otlet. Depois de ler alguns dos trabalhos do inventor, ele visitou o escritório abandonado do projeto, em Bruxelas, onde descobriu uma sala com jeito de mausoléu, lotada de livros e montes de papéis cobertos por teias de aranha.
Rayward ajudou a promover uma retomada do interesse pelo trabalho de Otlet, um momento que terminou por gerar interesse suficiente para resultar no museu Mundaneum, em Mons.
Hoje, o novo Mundaneum apresenta traços instigantes da web que poderia ter surgido. Longas fileiras de gavetas estão ocupadas por milhões dos cartões de índice criados por Otlet, e mostram o caminho para um arquivo repleto de livros, cartazes, fotos, recortes de jornal e todo tipo de artefato. Uma equipe de arquivistas trabalhando em tempo integral conseguiu até o momento catalogar menos de 10% da coleção.
A imensidão do arquivo revela tanto as possibilidades quanto as limitações da visão de Otlet tal qual ele a concebeu. O inventor imaginava uma série de arquivistas profissionais analisando todas as informações que chegassem e catalogando-as, uma filosofia que contraria a hierarquia da web moderna, onde tudo funciona de baixo para cima.
“Creio que Otlet teria se sentido perdido diante da Internet”, diz François Lévie, sua biógrafa. Mesmo com um pequeno exército de bibliotecários profissionais, o Mundaneum original jamais teria acomodado o imenso volume de informação disponível hoje na web. “Não creio que o projeto dele pudesse crescer”, diz Rayward. “Nem mesmo em escala suficiente para atender à demanda do mundo de papel em que ele vivia”.
Apesar dessas limitações, a versão do hipertexto proposta por Otlet tinha vantagens importante sobre a web atual. Enquanto os links atuais da web servem como uma espécie de conexão muda entre documentos, Otlet imaginava conexões que portariam significado, por exemplo na forma de anotações que informariam se determinados documentos concordavam ou discordavam. Essa facilidade falta notoriamente aos hiperlinks modernos.
Otlet também antecipou as possibilidades das redes sociais, de permitir que os usuários “participem, aplaudam, ovacionem, cantem em coro”.
Embora ele muito provavelmente devesse terminar perplexo diante do ambiente do Facebook e do MySpace, Otlet anteviu alguns dos aspectos mais produtivos das redes sociais – a capacidade de trocar mensagens,
participar de discussões e trabalhar em uníssono para a coleta e organização de documentos.
Alguns estudiosos acreditam que Otlet tenha antecipado algo como a web semântica, a estrutura emergente de computação baseada em assunto, que vem ganhando ímpeto entre cientistas do ramo como Berners-Lee. Como a web semântica, o Mundaneum aspirava não somente a criar links estáticos entre documentos mas a mapear relações conceituais entre fatos e idéias. “A web semântica tem algo de Otlet”, diz Michael Buckland, professor da Escola de Informação na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Os curadores do atual Mundaneum esperam que o museu evite o destino de seu predecessor. Ainda que ele venha conseguindo garantir verbas, não atrai tantos visitantes.
“O problema é que pouca gente conhece a glória do Mundaneum, diz Stéphanie Manfroid, a diretora de arquivos da instituição. “As pessoas não se entusiasmam ao ver um arquivo”.
Tentando ampliar seu apelo, o museu organiza exposições regulares de cartazes, fotografias e arte contemporânea. Mas embora apenas alguns turistas aparecem para visitar o pequeno museu em Mons, a cidade pode em breve encontrar seu espaço no mapa da história tecnológica. Este ano, um novo morador planeja abrir um centro de dados bem perto da cidade. Seu nome é Google.
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